Pesca submarina no Nordeste do Brasil
O Nordeste é a costa mais quente e mais rasa do Brasil: 26–30 °C o ano todo e recifes de arenito a poucos metros da praia. Este guia cobre cinco regiões do atlas — costa potiguar–cearense, litoral oeste cearense, delta do Parnaíba, costa dos corais e litoral sergipano — de Baía Formosa (RN) a Tutóia (MA).
O que decide o dia não é a temperatura: é o alísio e a água que as barras despejam. E a legalidade decide-se no mapa, não no calendário — a APA Costa dos Corais permite a pesca amadora na maior parte da sua área, enquanto parques do RN, da PB e do CE proíbem a caça submarina pelo nome.
Abrir o destaque — Arraial do Cabo →Estação, vento e visibilidade
A água é quente o ano todo; o resto exige planeamento. O alísio sopra de leste/nordeste e levanta mar picado a partir do meio da manhã — em Paracuru, Aquiraz e Caucaia é ele que fecha o dia, não a maré. A janela real é a manhã cedo; em Fortaleza a melhor água sai na estação seca, de julho a dezembro.
A visibilidade cai por fases: 5–15 m em dia calmo nos recifes do RN, da PB, de PE e de AL; para oeste a água carrega sedimento e a maré cresce — ~2,3 m no trecho PE/AL/PB, ~2,6 m em Fortaleza, ~3,3 m em Parnaíba e ~3,6 m em Tutóia. Em Sergipe a turbidez é admitida pelos próprios caçadores.
As cinco sub-costas e os seus spots
Costa potiguar–cearense, a mais completa: falésias e recifes em Baía Formosa e Pipa, recifes de orla e parrachos em Natal, o Cajueiro em Touros, pedras entre falésias em Icapuí e Beberibe, a Praia do Futuro e os naufrágios de Fortaleza, e a Taíba com o Navio do Pecém, a 22–34 m.
Costa dos corais (PB, PE, AL): recife de arenito paralelo à praia — os «curais» de Itamaracá, os recifes abertos de Porto de Galinhas fora das piscinas, Picãozinho e Seixas, Areia Vermelha e os naufrágios de Cabedelo, Ponta Verde em Maceió, a Praia do Francês e os pedrais de Coruripe, estes dois FORA da APA.
Oeste do Ceará, delta e Sergipe: menos recife, mais rocha solta, naufrágio e barco — Almofala, o Petroleiro do Acaraú, os recifes ao largo de Camocim; no delta, os «itans» e a Pedra do Sal, única rocha séria do Piauí. Em Sergipe é caça de raso: a Coroa do Meio em Aracaju e a Praia do Saco em Estância, piscinas de 0,5–2 m.
Licença e regras federais
A licença amadora sai no gov.br sob a Portaria SAP/MAPA nº 616/2022 e o art. 17 obriga a andar com ela na água — inclusive entrando pela praia, porque o Decreto nº 8.425/2015, art. 3º §1º II só dispensa quem pesca «com linha de mão ou caniço simples». Só apneia: o art. 4 §3 proíbe os «aparelhos de respiração artificial»; a arma é petrecho permitido pelo art. 4 IV. No mar, 15 kg mais um exemplar (art. 8º), e vender é proibido.
Espécies. A Portaria GM/MMA nº 1.667/2026 publicou a nova Lista Nacional em 28/04/2026 e a Portaria GM/MMA nº 1.666/2026, art. 3º, põe EW/CR/EN e VU sob proteção integral; para as espécies novas o art. 12 dá 180 dias — fecham em 25/10/2026. O aviso repetido nesta costa é o mero-itajara em moratória. Os budiões são não-alvo do amador (Portaria Interministerial nº 63/2018, art. 4º, parágrafo único).
Zonas do Nordeste, ato a ato
A camada de unidades segue a Lei nº 9.985/2000 (SNUC): a Proteção Integral fecha a pesca por inteiro; em APA e RESEX manda o zoneamento, não o nome. Na APA Costa dos Corais isso é literal — pelo Plano de Manejo (Portaria ICMBio nº 308/2021) a ZPRO, 94,49 % da área, permite pesca amadora e esportiva, e as zonas fechadas são nomeadas: ZPRE Tamandaré, ZPRE São José da Coroa Grande, ZPRE Maragogi, ZUCO Rio Persinunga, ZUCO Rio Meirim, ZUMO Carro Quebrado e ZUCO Rio Santo Antônio Grande.
Por estado: no RN a APA dos Recifes de Corais proíbe a pesca submarina (Decreto estadual nº 15.746/2001). Na PB o Parque Estadual Marinho de Areia Vermelha é no-take (Decreto nº 21.263/2000). Em PE o Decreto nº 23.394/2001 fecha naufrágios e o Decreto nº 50.351/2021 fixa o raio de 500 m. No CE a caça submarina é nomeada e proibida na Pedra da Risca do Meio (Lei nº 17.674/2021). No delta, o Monumento Natural Estadual das Itans é no-take e a norma 27 do plano da APA Delta do Parnaíba fecha as áreas marinhas com fontes de água doce.
Portos e advertências. As NPCP fecham canais de acesso, bacias e faixas junto a navios (AL 5.10.2, PB 0508, SE 0509, e em PE o item 0509 sobre molhes); a NPCP-CE, ao contrário, abre expressamente os fundeadouros à pesca. A cobertura do levantamento é parcial e várias destas proibições existem sem desenho no mapa; a camada estadual do Nordeste não foi levantada, e a sua ausência não significa que não exista. E o Decreto nº 6.514/2008, art. 42, parágrafo único, define «ato tendente à pesca» como estar armado na área ou dirigindo-se a ela: entrar numa zona fechada com a espingarda já é a infração, sem ter atirado.
Segurança: tubarões, tráfego e barras
O ponto duro é o corredor de ataques de tubarão da Grande Recife (CEMIT). O Cabo de Santo Agostinho fica na sua borda sul e o próprio catálogo escreve o procedimento: informe-se sobre a área, não entre com peixe a sangrar na cintura e nunca mergulhe sozinho ao anoitecer.
O resto é tráfego e água doce. Picãozinho tem catamarãs; Natal e Trairi, jangadas; Aquiraz e Paracuru são praias de kitesurf — boia e ficar fora das rotas. Em Pipa há golfinhos residentes e tartarugas: não atire perto. Baía da Traição é terra indígena Potiguara e Icapuí tem forte manejo comunitário — respeite as regras locais.
Acesso, maré e barco
Quase toda esta costa se faz de costa, em 5–15 m, e a maré ordena o dia: com mesomaré de ~2,2–2,3 m as barreiras descobrem na baixa-mar e é na enchente que a água entra limpa — em Itamaracá está escrito com todas as letras: com a vazante o canal despeja lama.
O barco é para os naufrágios (Servemar X no Cabo, Marte e Igel em Porto de Galinhas, Norte Mar em Natal, Mara Hope em Fortaleza, Macau em Fortim) e para as saídas longas do oeste cearense, como o Petroleiro do Acaraú. Para isso, licença «embarcada»; e note que a Lei nº 11.959/2009, art. 9º §2º torna ilegal caçar como amador a bordo de embarcação de pesca profissional.
Onde mergulhar, por região
Costa dos Corais
A Costa dos Corais de Alagoas–Pernambuco — piscinas de recife quentes e claras dentro de uma APA protegida (atenção aos defesos).
- Cabo de Santo Agostinho — O Cabo de Santo Agostinho, ao sul de Recife, tem a Enseada dos Corais — recifes e costão indicados para pesca submarina, mergulho de costa 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Ipojuca (Porto de Galinhas) — Porto de Galinhas (Ipojuca) é cartão-postal de recifes e piscinas naturais, água quente 27–30 °C — mas ⚠️ as piscinas naturais junto à praia são protegidas e há forte tráfego de jangadas de turismo; a pesca submarina não é permitida ali.
- Maceió — Maceió tem água cristalina de tom verde-piscina e recifes de arenito a poucos metros da praia (Ponta Verde, Riacho Doce), 5–12 m, temperatura 27–30 °C.
- Barra de São Miguel — Barra de São Miguel, ao sul de Maceió, é protegida por uma barreira de recifes que forma a piscina da Praia do Gunga, água quente 27–30 °C.
- João Pessoa — João Pessoa fica no ponto mais oriental das Américas (Ponta do Seixas), com recifes de arenito como Picãozinho e Seixas a poucos metros da praia, 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Cabedelo — Cabedelo, ao norte de João Pessoa, é famosa pelo banco de areia de Areia Vermelha (que emerge na baixa-mar de sizígia) e por recifes e naufrágios ao largo, 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Baía da Traição — Baía da Traição, no litoral norte da Paraíba, tem enseadas abrigadas, recifes de arenito e areia — mergulho de costa 5–12 m, água quente 27–29 °C.
- Ilha de Itamaracá — O lado oceânico de Itamaracá é feito de «curais» — barreiras de arenito que fecham piscinas na maré baixa e viram parede de caça na maré cheia.
- Goiana (Ponta de Pedras) — Ponta de Pedras, a norte da foz do rio Goiana, é costa de recife com um vídeo direto de pescaria sub no topónimo.
- Tamandaré — Tamandaré é dos sítios de pesca sub mais abertos de Pernambuco: seis vídeos e uma página de comunidade local com o nome da vila.
- São José da Coroa Grande — A base de prova mais densa de Pernambuco: sete ou mais vídeos de pesca sub — «barreiras de corais», xaréu de 6 kg, mergulhos até 9 m — e página de comunidade local.
- Conde — Entre João Pessoa e Pitimbu há quarenta quilómetros sem cidade no atlas, e Conde é o meio: falésias, costão em Coqueirinho e os recifes de Jacumã, catalogados a 3–6 m.
- Pitimbu — Praia de Pontinhas é costão rochoso de verdade, e Pitimbu aparece com regularidade num canal de pesca sub com mais de cem mil subscritores, além de equipas locais.
- Maragogi — Maragogi entra no atlas depois de uma revisão: o zoneamento de 2021 mostra que o no-take aqui é só a ZPRE «Pedra do Meio», e o resto é ZPRO, onde a pesca amadora e desportiva é permitida.
- Barra de Santo Antônio — A praia do Carro Quebrado é filmada por equipas de pesca sub, e a barra serve de base para saídas de alto mar.
- Marechal Deodoro (Praia do Francês) — A Praia do Francês tem pedras, locas e pequenos abismos até uns 12 m, descritos em vídeos de pesca sub; a Praia do Saco é a alternativa a sul.
- Coruripe — Nove vídeos de pesca sub descrevem o mesmo: pedras e locas, barracuda, e água transparente na estação certa.
- Recife — Recife é a capital brasileira dos naufrágios para o mergulho contemplativo e um dos piores lugares do país para caçar.
- Olinda — Olinda fica na ponta norte do corredor de ataques de tubarão do Grande Recife: a área de interdição do Decreto Estadual PE nº 21.
Costa Potiguar-Cearense
A costa Potiguar–Cearense (Natal, Fortaleza) — recifes quentes sob alísios constantes; pesca nas manhãs calmas.
- Baía Formosa — Baía Formosa, no extremo sul do Rio Grande do Norte, junta falésias, recifes de arenito e uma enseada abrigada de barco de pesca — mergulho de costa 6–15 m, água quente 26–29 °C.
- Tibau do Sul (Pipa) — Pipa (Tibau do Sul) é falésia colorida, recifes de arenito e a famosa Baía dos Golfinhos — mergulho de costa 6–15 m, água quente 26–29 °C.
- Natal — Natal tem recifes de arenito ao longo da orla (Ponta Negra, Via Costeira) e parrachos ao largo, água quente 27–29 °C, mergulho de costa 6–15 m.
- Touros — Touros marca o canto nordeste do Brasil, onde a costa vira de frente-leste para frente-norte — recifes de arenito extensos e o Cajueiro, mergulho de costa 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Icapuí — Icapuí é o primeiro município do Ceará vindo do RN, com a Ponta Grossa e a Redonda encaixadas entre falésias — recifes de arenito de mergulho raso 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Beberibe (Morro Branco) — Beberibe reúne Morro Branco e Praia das Fontes, com falésias de areia colorida e recifes de arenito — mergulho de costa 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Aquiraz (Porto das Dunas) — Aquiraz (Porto das Dunas, Prainha) fica logo a leste de Fortaleza, com recifes de arenito e areia — mergulho raso 5–12 m de costa, água quente 27–29 °C.
- Fortaleza — Em Fortaleza a caça de costa fica nos recifes de arenito da Praia do Futuro e em pontos fora do porto, 5–12 m, água quente 27–29 °C.
- Paracuru — Paracuru, a oeste de Fortaleza, tem recifes de arenito e a ponta rochosa junto à barra do Rio Curu — mergulho raso 5–12 m de costa, água quente 27–29 °C.
- Trairi (Flecheiras) — Trairi (Flecheiras, Mundaú) tem recifes de arenito que formam piscinas naturais na baixa-mar e água notavelmente clara para o Ceará — mergulho de costa 6–15 m, água quente 27–29 °C.
- Fortim (Pontal de Maceió) — Fortim é a ponta rochosa do Pontal de Maceió: lajes de arenito com entrada de costa junto à barra do rio Jaguaribe, e três naufrágios ao largo — Macau, Cisne Branco e Navio do Sal; o Macau fica entre 10 e 18 m.
- Caucaia (Icaraí / Cumbuco) — Caucaia guarda os recifes de arenito de Iparana e Icaraí, com entrada de costa e uma comunidade de pesca sub que filma o mesmo trecho há seis anos.
- São Gonçalo do Amarante (Taíba / Pecém) — Dez quilómetros de praia da Taíba com recifes de arenito e entrada de costa, mais o Navio do Pecém — cargueiro a vapor torpedeado pelo U-507 em 1943, hoje entre 22 e 34 m, mergulho avançado e de barco.
Litoral Sergipano
O litoral sergipano (Aracaju, Estância) — recifes rasos entre as fozes do São Francisco e do Real; a visibilidade é honestamente pequena, a janela são os meses secos.
- Aracaju — Aracaju entra por revisão: três vídeos de pesca sub com o topónimo, incluindo as pedras da Coroa do Meio.
- Estância (Praia do Saco) — Praia do Saco: recifes e piscinas de 0,5 a 2 m, com canais até uns 5 m, e dois vídeos de pesca sub filmados no município.
Litoral Oeste Cearense
O litoral oeste cearense (Itarema, Acaraú, Camocim) — recifes de arenito e naufrágios sob alísio constante; a água limpa quando o vento cai.
- Itapipoca (Praia da Baleia) — Praia da Baleia: recifes de arenito com entrada de costa e um recife carteado ao largo.
- Itarema (Almofala) — Almofala e Porto dos Barcos: pesca sub de costa e embarcada documentada em vídeo.
- Acaraú (Arpoeiras / Espraiado) — Caça sub no Espraiado registada desde 2012, e o Petroleiro do Acaraú — naufrágio perigoso carteado a ~6 km da costa — é o alvo da comunidade sub de todo o litoral oeste.
- Camocim (Maceió / Xavier) — Pesca sub de costa documentada em quatro vídeos entre 2017 e 2026 (praia do Maceió e praias de Camocim), incluindo um canal local.
Delta do Parnaíba
O delta do Parnaíba (Parnaíba, Luís Correia, Tutóia) — marés até 3,5 m e água com sedimento; mergulha-se nos «itans» e na Pedra do Sal na estação seca.
- Cajueiro da Praia (Barra Grande) — Barra Grande: pesca de mergulho local documentada (polvo, e um registo de peixe-leão em 2022 por mergulhador da região).
- Luís Correia (Atalaia / Coqueiro) — Atalaia e Coqueiro, com faixas de arenito junto à praia; a pesca sub aqui é do mesmo praticante local ao longo de doze anos (2014→2022), robalo incluído.
- Parnaíba (Pedra do Sal) — A Pedra do Sal é a única formação rochosa a sério do litoral piauiense: um lado bravo, um lado abrigado e poças entre as rochas com budião e garoupa, segundo o guia de pesca local.
- Tutóia — A única exceção provada do Maranhão: um canal local publica uma série de pescarias sub no mar de Tutóia, «pontos fundos, com bastante vida marinha».
Perguntas frequentes
Regras atuais em 2026 — confirma sempre com o ICMBio/IBAMA e a autoridade local antes de ir. Pesca submarina recreativa só em apneia (sem escafandro); espécies protegidas como o mero são totalmente proibidas, e as APAs marinhas e parques nacionais fixam as suas zonas de defeso.
Preciso de licença entrando pela praia?
Sim. O Decreto nº 8.425/2015, art. 3º §1º II só dispensa quem pesca «com linha de mão ou caniço simples», e a espingarda de mergulho não está nessa exceção. Sem barco a categoria é «desembarcada»; com barco, «embarcada». O art. 17 da Portaria 616/2022 obriga a andar com ela na água.
A APA Costa dos Corais proíbe a pesca submarina?
Não como unidade. O Plano de Manejo (Portaria ICMBio nº 308/2021) permite a pesca amadora e esportiva na ZPRO, 94,49 % da área; o que fecha são as zonas nomeadas — ZPRE Tamandaré, ZPRE São José da Coroa Grande, ZPRE Maragogi, ZUCO Rio Persinunga, ZUCO Rio Meirim, ZUMO Carro Quebrado, ZUCO Rio Santo Antônio Grande. Em Porto de Galinhas, além disso, as piscinas junto à praia não são spot. Confirme os limites antes de entrar.
Posso apanhar lagosta ou polvo a mergulho?
Não. Para a lagosta a Portaria SAP/MAPA nº 221/2021, art. 6º III proíbe a captura por «mergulho de qualquer natureza» — é proibição de método, dentro ou fora do defeso — e o art. 4º, parágrafo único, fecha ainda as 4 milhas náuticas junto à costa. Para o polvo, a lista de petrechos do amador na Portaria 616/2022, art. 4º é fechada e a coleta com as mãos não está lá.